Dois Lugares, Um 

Encontramo-nos na intersecção de dois momentos da prática artística – entre processo e obra. Dada a natureza de uma residência de investigação e criação artística, é amplo o
tempo de vivência, com as pessoas e com os lugares.

É aqui que me deparo com arremessos íntimos, aquilo que não vemos enquanto obra, mas que vai acontecendo dentro e fora de nós – falo dos cadernos, dos diários, das folhas soltas que vamos sempre guardando – de todos os objectos que nos acompanham e que nunca me parecem ser algo a expor. São objectos sensíveis, de poucas ou muitas páginas, com conteúdos muitas vezes perecíveis – um desenho a vinho, a mancha da seiva de uma folha de esteva, o registo de uma conversa com um pinheiro. No fundo, são retratos de espaços, são a nossa relação com um lugar e com os seus ciclos.

Aquilo que consideramos Obra – uma tela esticada, uma escultura num plinto, ou uma folha exposta isoladamente – para o artista, pode não ser, por vezes, suficiente. Existe todo um processo – um percurso, um espaço, um tempo diferente do tempo da obra, anterior à sua concretização, e que, muitas vezes, não é visto.

Marco Pestana e Carolina Lino.