Judite Canha Fernandes

bio
Nasceu no Funchal em 1971 e foi viver para Ponta Delgada, onde cresceu, em 1980. É doutorada em Ciência da Informação, licenciada em Ciências do Meio Aquático, pós-graduada em Biblioteca e Arquivo e procura agora iniciar um pós-doutoramento em Estudos Literários. É escritora, performer, curinga [teatro do oprimido], feminista, bibliotecária, dramaturga, mãe, investigadora, sem nenhuma ordem em especial. Gosta de coisas muito diferentes e é algo avessa à ordem, como se intui. Publicou, em Portugal, no Brasil e em Itália, poesia, ficção e teatro. Semi finalista no prémio Oceanos 2018, com o livro de poesia “o mais difícil do capitalismo é encontrar o sítio onde pôr as bombas”, foi menção honrosa no Prémio Literário Ferreira de Castro em 2018 com o conto “A que horas bate?” e venceu o Prémio Agustina Bessa Luís 2018 com o seu romance de estreia “Um passo para sul”.

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A timidez das árvores

Os textos apresentados são excertos do conto A timidez das árvores de Judite Canha Fernandes, seguidos de notas desenvolvidas em residência criativa no Jardim das Pedras, e no Fundão. Juntam-se às imagens de Tata Coutinho por osmose, que é um modo dos entes se aproximarem pela raiz enquanto mantêm as asas livres.

Participação da artista no canal Horizonte da plataforma – Buraco negro.
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A timidez das árvores é um conto de árvores tímidas que se retraem perante as outras. É a história de Clara, uma introvertida que quando perde o seu companheiro de muitos anos percebe estar a se transformar numa árvore. Clara começa por desenvolver coroa tímida, fenómeno em que as copas das árvores da espécie Dryobalanops aromatica, mesmo vizinhas e da mesma altura, não se tocam, nunca se tocam, criando um intervalo bem definido entre um eixo e outro.

2

(…) a minha preocupação começou a atingir o paroxismo, pois a minha pele começou a secar inexplicavelmente. Uma pele mista, normalíssima. Nenhuma hidratação conseguia recuperá-la, pelo contrário, começava a formar crostas nas coxas e no ventre, mesmo sobre o umbigo. E que poderia ser, senão seiva, o que me escorria entre as pernas?

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(…) Reparei que toda a parte inferior do meu tronco tinha estreitado. As minhas ancas pareciam ter-se transformado num cilindro que apertava na cintura e se abria em dois ramos com mais de três metros cada. O vento dobrava-me ao mesmo tempo que me fazia cócegas entre as folhas.
(…) Recebi hoje um alerta da Google sobre a minha conta vinculada. Ainda tentei aceder ao e-mail, mas os meus dedos endureceram muito na última semana.

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O que aprendi hoje:
– Há árvores cujas copas têm a mesma dimensão das raízes espalhadas pela superfície. Os tratores cortam as raízes e depois seguem, distraídos, levando a sua doença para outras bandas;
– Há tapetes de penugem deixados pelas formigas que limpam a casca para poder carregar as sementes para casa;

5

O que aprendi hoje:
– Há árvores que são pessoas;
– O ar muda quanto entras numa floresta, fica mais grisalho, mas ao mesmo tempo mais doce;
– Pode reter-se água usando semi-círculos de pedra;
– Rossio era um lugar de árvores de fruto.

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Hoje aprendi a contar a idade das árvores em tempo humano.

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Há árvores que são tímidas, outras não. Estas últimas crescem depressa, são muito exuberantes, põem galhos em cima das outras. Algumas deixam crescer espinhos para empurrar os animais. Elas não podem fugir e aquilo de que têm mais medo é que um animal as coma.

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Existem florestas de árvores sábias. Florestas anciãs. A memória circula entre elas. Quando chegam a essa idade, estão prontas para o outro. São capazes de dar, como se aprendessem com o tempo o conceito de dádiva. São capazes de alimentar uma comunidade inteira. Fazem a ligação entre a terra e o espírito.

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Muitas árvores nascem com a casca lisa, depois, ao amadurecer, tornam-se rugosas, abrem buracos nos troncos, surge um musgo pendente, que pende, não jovem. Os ramos tornam-se braços cada vez mais grossos, largos e fortes, surgem líquenes, a arquiteta da copa vai se tornando mais aberta e ampla. Primeiro as copas são esguias, depois engordam e voam.

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Há dois tipos de carvalho, que só parecem diferir pelas folhas serem mais aveludadas ou mais lisas. As folhas aveludadas conseguem resistir, as outras não. Não cresceram para viver naquele lugar, foram-se adaptando, por milénios, mas algo ainda as confunde. O carvalho dá muito a partir de certa idade.

Participação da artista no canal Horizonte da plataforma – Buraco negro.
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O peixe e a pedra
Pintura e escrita – Augusto Meneghin e Judite Canha Fernandes

De que maneira este lugar nos influencia? De que maneira pode uma paisagem repleta de pedras estabelecer relação com uma fonte de energia que é também um alimento, como um peixe? Quais as relações que podem ser estabelecidas entre um peixe e uma pedra? As questões iniciais, antes de nossa vinda, foram pulverizadas, porque não partimos de uma ideia, mas da matéria, da escuta e da nossa transformação em relação com este lugar.

Ao estabelecermos estes seres como foco — o peixe e a pedra — surgiram outras relações: a matéria que é claramente animada, com outra que é animada de modo pouco claro. Uma impregnada de memória, outra quase sem memória. Estes paradoxos revelam o processo aparentemente absurdo de transformação da matéria.

Em imagem, em escrita, criamos sobre a possibilidade de uma matéria viva e animal ser transformada numa pedra, imóvel e silenciosa.

 

Imagem: Sem título (detalhe) 25*27,5 cm, tinta da China sobre papel japonês, 2020