Dias Contados
Residência para a peça coreográfica, Fundão, 2020

 


Créditos António MV

 

Recebi a carta. Abri a carta. Li a carta. Fiquei parada de pé.

(…)

Olhei em volta. Não há outro mundo, há apenas uma outra maneira de viver.

Praças, ruas, estabelecimentos vazios de sentido. A cidade moderna, o exército anónimo do progresso, implacável na devastação como a sua única salvação. Pessoas sem casa, expulsas, empurradas para um sítio qualquer. Uma crise habitacional que não é mais do que uma luta de classes. Trocam-se as cores, limpam-se os destroços, reabilita-se. Substitui-se a população, os mais pobres pelos mais ricos. O fosso social alarga-se perpetuando a tensão. Não ter direito a uma casa, a um sítio que nos devolva quem somos, é algo de profundamente desestruturante. A paisagem modifica-se, demolição silenciosa da memória patrimonial e afectiva, que poucos podem acompanhar. A especulação. Há prédios a arder, há bullying, há mortes. Longe daquele que tem os mais altos muros e as fachadas mais fechadas.

Já se sabe: a crise é um modo de governo, a verdadeira catástrofe é existencial e metafísica e a revolta e o pensamento são-nos forças inalheáveis.

Até lá rios secam, árvores são dizimadas, espécies que passam só a existir em livros, plástico no ar, novas doenças. E os supremos que tentarão refugiar-se sempre no seu condomínio de luxo, ao abrigo de tempestades e evidências.

Elizabete Francisca
12 de Janeiro de 2020

 


Oaxaca, México, 2006 (“Eles querem obrigar-nos a governar, mas não vamos cair nessa tentação”)
AOLX, Lisboa, 2017 (“Não somos especuladores/ Somos espectaculares”)

 

Eu sou só mais uma

ONDE A BOCA SE ABRE NUMA NÃO-RECUSA E NUM SIM-DESEJO
ou
[texto esboço de uma realidade em construção, numa mistura entre o público e o privado, o macro e o micro, o real e o projectual, por às vezes já ser, alegremente tão difícil discernir].

Eu sou só mais uma que recebi uma nota de despejo.
(…)
Eu sou só mais uma que recebi uma nota de despejo.
Eu sou só mais uma a ter de encontrar alternativas, desenterrar alternativas, inventar alternativas, suar alternativas, expropriar-me em vários sentidos. Encontrar nesse desequilíbrio uma rede sustentada, sustentável. Talvez essa, grandemente, a da troca directa: de bens, de serviços, de afectos, de tempo. Devir todo, devir comum.
(…)
Sou só mais uma a perder acesso àquele restaurante, àquela mercearia, àquele miradouro onde um espetáculo de som e luz gratuito e ao ar livre acontece todos os dias: flashes em campo de batalha se esgueiram no meio do barulho dos tuk-tuks a derramar turistas. Sou só mais uma a dar conta de um novo proprietário, a dar conta que o terraço popular da Pollux agora é o caríssimo LESS e que do café Estádio só resta a placa. Sou só mais uma a ouvir que “o problema agora é que isto não é para todos”. Sou só mais uma que vive debaixo de um hostel, num prédio em que as pessoas não dizem bom dia nas escadas e deixam a porta escancarada como se tudo isto, já fosse um resort qualquer.
Sou só mais uma a não conseguir apanhar o Eléctrico 28. E a subir a colina em manifestação de cólera desapegada numa calçada que já parece tudo menos portuguesa.
Sou só mais uma que ri (tontamente e inocuamente) com a expressão de uma moradora da Mouraria que diz já se considerar uma figura quase pré-histórica da zona. Ou ainda com o plano de contratação de figurantes para se fazerem passar de Lisboetas que deambulam pela cidade. Sou só mais uma que se espelha na Tânia Fortuna ao comentar o Debate sobre Habitação com os Candidatos à CML: “Sinto-me um pouco aterrorizada de cada vez que penso que quando for procurar novo arrendamento permanente vou deparar-me com uma tarefa hercúlea. Repito: aterrorizada.”
Sou só mais uma a ouvir a sinfonia de Lisboa composta por martelos pneumáticos, perfuradoras e despejos de entulho que se lançam através de formas plásticas tubulares. Sou só mais uma quase a ser atropelada pela carrinha Lisboa Aventura, Go Wild. Sou só mais uma a tentar desvendar qual a sucessão de ideias do Sr. Empreendedor que resulta no típico “O Mundo Fantástico da Sardinha Portuguesa”, que mistura um género de personagens de um Alice no País das Maravilhas com o Eduardo Mãos de Tesoura, numa espécie de feira popular instalada num barco pirata hipster.
Sou só mais uma a olhar para o rio Tejo e a pensar que para o ano, quando Lisboa receber o maior congresso de cruzeiros do Mundo, não vai conseguir avistar nem Almada nem o Barreiro. Sou só mais uma incrédula com esta estranheza do ser ocidental em relação ao mundo, que lhe exige ser amo e possuidor da natureza.
Sou só mais uma, e por consequência, dentro desta extensão desolada mediada pelo trabalho, por um histerismo superficial de existencialismos superequipados. Sou só mais uma a ver o smartphone como a perfeita aparelhagem da ausência. Sou só mais uma a viver um falso luto. (Não foi o mundo que se perdeu, mas sim os humanos.) Sou só mais uma dentro de um paraíso fiscal (que rima com infernal). E sou só mais uma agora a fazer fila no supermercado com a Madonna e com a Monica Bellucci.
Sou só mais uma portuguesa, que ouve de tantos outros jovens espanhóis e franceses (acima de tudo) a ripostarem que não percebem a inércia e o fatalismo dos daqui, mesmo em reuniões onde se dizem todos anarquistas. Sou só mais uma a dizer-se que é preciso muita atenção a coisas como fundamentalismos, conservadorismos, Lisboa-centrismos.
Sou só mais uma a fazer download do aplicativo GPS for the Soul.
Sou só mais uma que tantas vezes fica inerte mas a pensar que talvez o verbo seja des-começar e que provavelmente os recursos naturais estão menos esgotados do que os recursos subjectivos e vitais.
(…)
Eu sou só mais uma a ter de encontrar alternativas, desenterrar alternativas, inventar alternativas, suar alternativas, expropriar-me em vários sentidos.

O embrutecimento é da idade da pedra. E isto é tanto colectivo como o é na primeira pessoa.

[texto que integra o documento de descrição do projecto, por forma a ter apoios para o concretizar num futuro possível. Escrito em Outubro de 2017, Lisboa]

 


Francisco de Goya, 1799 (Los Caprichos: Y aun no se van)