Quimona

Intérpretes: Sara da Graça, Óscar Silva, David Esteves e Nuno Pinheiro
Direcção: Filipa Matta
Produção: Nuno Pinheiro e Vitor Alves Brotas/Agência 25
Direcção cinematográfica: Lúcia Pires
Programação: Inês Domingos
Captação e edição de som: Bernardo Theriaga

“Alguém nos contou demasiadas histórias de encantar, vimos demasiadas telenovelas, ouvimos demasiadas músicas POP sobre amor e desamor, falaram-nos da ideia de que iríamos conquistar a terra perdida, ser alguém melhor, fomos muito mimados, crescemos todos burgueses (até podemos comer de boca aberta e falar ao mesmo tempo), tomámos demasiadas drogas, vimos mais bocados de terra que o nosso corpo alguma vez possa digerir… (…) Tenho medo Sara. Tenho passado os dias assombrada com um medo. Podemos dar-lhe um nome para não parecer tão pesado: Quimona. A QUIMONA atormenta-me nestes dias de inverno. Tenho Quimona comigo e apesar de me sentir sozinha, como nunca o senti antes, sinto-o de forma partilhada. Como se todos tivéssemos uma Quimona.”

O excerto acima é parte da carta, dirigida à Sara Graça (uma das intérpretes deste projecto), que deu o mote para o desenvolvimento deste espectáculo e o próprio título: “Quimona”. Esta
carta foi escrita por mim em 2018. Percebi ao escrevê-la que precisava de colocar algumas questões que me fizessem sair da tão estimada imobilidade que teimava em ser alimentada por uma crítica permanente ao “outro”: Como desvendar outros finais quando já vi mil e um finais possíveis? Como eliminar a nostalgia de coisas que não foram vividas? Como acalmar a vontade de se ser histérico, principal e brilhante? Como extinguir o desejo de estar em todos os lugares ao mesmo tempo?

Este processo iniciou-se em 2019, com encontros informais com o David Esteves, o Nuno Pinheiro e o Daniel Gamito Marques seguidos de um atelier, no espaço da Eira em que sete pessoas foram convidadas para um período de experimentação. Procurámos identificar, através de exercícios de improvisação pluridisciplinares, causas e manifestações exactas da quimona, procurámos saber como as pessoas lidam com a sua inércia e identificar as influências e vocabulários da geração dos Millennials. Partindo de um olhar “sobre si mesmo”, enquanto consumidores e receptáculos numa dinâmica de mimetização e repetição de padrões, questionamo-nos de que modo estas referências apelam à nossa fragilidade, inocência e decadência.

Assim este espectáculo toma a forma de um espectáculo/site, que à semelhança da Bioluminescência e da Memória individual explícita ou implícita, pretende colocar várias linguagens ao serviço do proponente do espectáculo. A Bioluminescência distingue-se como o primeiro espectáculo em diálogo com o formato vídeo, visto ter sido desenvolvido para ser filmado nos estúdios da RTP e para passar na Televisão. A “Quimona” terá o mesmo diálogo, mas num formato mais cinematográfico. Neste sentido, este espectáculo terá o formato digital, recorrendo a ferramentas de programação para a criação de uma página web, onde o espectador será convidado a percorrer um percurso virtual sujeito a regras e um mapeamento que o conduzirá numa narrativa. Apesar do caráter digital, o “espectáculo/site” tem como proposta e desafio colocar o digital e o analógico em contacto, visto o teatro ser uma atividade viva e a visualização num computador uma experiência estática.
Também neste projecto, tal como nos anteriores, o processo de pesquisa e experimentação passará por reunir a fragilidade do universo pessoal de cada intérprete com a agilidade da
ficção e a poesia que lhe é inerente; aliar dança, teatro e música como linguagens unas; continuar a explorar as capacidades de extrapolação e improvisação sobre estruturas complexas, estruturadas e marcadas.

Neste projecto, interessa-me desenvolver a ligação com a tecnologia, problematizando a relação e o confronto da fantasia e da ilusão com a realidade, relação e confrontos estes que são estimulados maioritariamente pela ascensão da cultura pop, do neoliberalismo, da televisão e dos videojogos. Estes elementos consequentemente amplificam o recente significado de adolescer e problematizam a relação do mundo real com a ficção, criando estados como a inércia, o aborrecimento e a estagnação. Pretendo transferir para o projecto influências teatrais do teatro musical, o realismo do cinema/documental, a aleatoriedade da televisão, a magia dos filmes de acção e desenhos animados.

Os trabalhos que desenvolvi anteriormente, sejam em formato vídeo, livro ou performativo, todos eles têm lugares comuns como a aplicação de ferramentas para servir o conceito
implicado no projecto, a tentativa de dar voz a elementos que na generalidade servem apenas a narrativa, misturar o documental com a ficção, integrar as histórias pessoais como forma de levantar questões, a invisibilidade, e como ideologia, integrar todos os elementos da equipa considerando o trabalho um objecto comunitário e que a todos servirá como alavanca de pensarem-se como indivíduos.

Neste momento o espectáculo encontra-se enquadrado na seguinte proposta narrativa: Existem quatro personagens, quatro narrativas, que se cruzam. O espectador só tem acesso a uma delas. Estas personagens escrevem uma carta e seguem para enviar a carta por correio, No caminho são interceptados por algo mágico e inquietante que os leva a ter um encontro. Este será um projecto carta, dirigido a mim, aos meus pais e à minha geração, sem a pretensão de ser um manifesto. Importante também ressalvar que esta não é uma perspectiva global, porque existem outras realidades e outras experiências que nada têm a ver com a nossa. Por isso, a pesquisa para este projecto será, desenvolvida em conjunto com os elementos artísticos e técnicos que também eles cresceram e viveram a década de noventa em Portugal num contexto de cidade e subúrbio.

Neste momento o projecto conta com o apoio do Garantir Cultura e co-produção do Espaço-do-Tempo, Ajidanha e Cão-Solteiro.

Lúcia Pires
bio

Bragança, 1988. Licenciou-se em Cinema – Realização e Montagem (2014) na ESTC, Lisboa. Profissionalmente, o seu percurso passa por Cinema e Teatro, como realizadora argumentista, montadora, produtora e atriz.

Como criadora em Cinema, escreveu, realizou, montou as curtas-metragens PEIXES, 12′ (fic, 2012); BILHÓ EM NOITE FELIZ, 27′ (doc, 2014), exibição no Panorama 2015 – Mostra de documentário português; FAUNA, 15′ (fic, 2018) exibição e menção honrosa no Festival IndieLisboa ’18; A RAINHA, 17′ (fic/doc, 2020) exibição na Competição Nacional do IndieLisboa ’20, na secção Outros Olhares do Caminhos do Cinema Português ’20, selecção oficial do Leiria Film Festival ’21 e semi-finalista no Boden International Film Festival, ainda a fazer o seu percurso em festivais. Em Teatro, escreveu a peça de teatro CAÍDAS DO TETO, a partir d’O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago e a peça de teatro A MANCHA, integrada na 4ª edição do Laboratório de Escrita para Teatro do D. Maria II. Trabalhou como montadora na RosaFilmes, com o realizador Joaquim Sapinho; como produtora da série documental PARAÍSO (Maria & Mayer), realização de Graça Castanheira, com exibição na RTP. Em cinema, montou as curtas PRIMÁRIA, A MINHA IDADE, O PÂNICO e O TURNO DA NOITE, de Hugo Pedro; OS INÚTEIS, de Rui Esperança. Foi também atriz na curta-metragem de Ana Mariz, MATILDE OLHA PARA TRÁS.

Em teatro, trabalhou com Maria Duarte como produtora em GERTRUDE – O GRITO e como atriz notrabalho de teatro DEMOC.